Quem é o sujeito que busca assistência no SUS (Sistema Único de Saúde)?

É um ser muitas vezes sem muita informação, mas com muito conhecimento de vida, sabedoria essa que constitui seu sujeito;

É um ser que agrada com galinha, periquito e papagaio qualquer um que a ele prover um tanto de atenção e cuidado, sabendo agradecer de forma simples uma ação que a princípio é dever de quem faz, mas faz acreditar naquele que recebe ser um favor;

É um ser carente e urgente de atenção, principalmente, os mais velhos que fazem da visita a uma Unidade de Saúde sua rotina importante e imperdível;

São pessoas merecedoras de atenção, cuidado e porque não dizer afeto? São pessoas que se contentam com muito pouco e que vivem esse pouco como se fosse tudo; pessoas essas que tem na imagem do outro o único reconhecimento de sua própria imagem, porque muitas vezes suas identificações são restritas a quatro paredes e nada mais;

São pessoas que aparentemente o único direito que possuem, é o de ter sua saúde aparada e se tais direitos são poucos, os deveres são muitos. Os baixos níveis de escolaridade muitas vezes tornam os sujeitos incapazes de fazer planejamentos e escolhas mais inteligentes;

São pessoas que aparentemente não tem muito “estudo”, mas que tem muita vontade de ajudar, mesmo sem saber o significado da palavra altruísta são assim por natureza.

São pessoas muitas vezes tratadas como ignorantes por pessoas mais ignorantes ainda; (fato)

São pessoas que não tem noção do controle social que podem exercer e que quando por inclinações individuais exercem, são acusados de desacatar as pessoas e o serviço. Coitados, pois mesmo possuindo vozes, elas não são ativas;

Enfim, são sujeitos em construção de sua identidade.

Sou eu, são vocês, são todos aqueles que dependem de uma saúde provida pelo estado e que de antemão não nos retira a responsabilidade sobre nossa própria saúde, mas que tal estado tem o dever de nos prover a atenção adequada e a resolutividade necessária para todos os percalços exigidos.

O sujeito que busca assistência no SUS, assim como ele, é um sujeito em construção e complexo.

Uma carta a vocês médicos.

Por favor, não me venha com diagnósticos quando o momento é apenas de consolo;

Não me trate como um leigo, pois a vida pode ensinar bastante a qualquer um;

Escute-me ao invés de escutar fatos errados de doutorandos, que nem ao menos me procuraram para saber a real situação do paciente;

Não me venha com termos clínicos quando o que mais precisamos é termos atenção;

Não faça sentir-me um ignorante quando ignora o que digo, ou ainda vira a cara para escutar estranhos falando de um paciente que há sete meses acompanho;

Antes de ser O médico seja um amigo, que escuta, acolhe e que me trate com carinho.

O desabafo é pelo descaso que vejo em alguns momentos em relação ao meu avô que está internado. Na manhã do dia 23, esperava o médico vir dar alguma satisfação sobre a situação do meu avô, aguardava ansiosa, pois o mesmo encontra-se em péssimo estado de saúde, principalmente porque ele mesmo contribuiu para o agravo do quadro quando decidiu se entregar a doença. Pois bem, o médico entra na enfermaria acompanhado por 6 doutorandos, todos com pranchetas nas mãos e com caras assustadas. O representante do grupo começa a falar do meu avô como se o conhecesse e dizer coisas erradas a respeito do mesmo, coisas do tipo:

1 – o paciente adquiriu uma ICC (insuficiência cardíaca congestiva) por causa de uma isquemia: ERRADO. Meu nunca teve isquemia e nesse momento fiquei calada.

2- o médico perguntou se ele estava com acesso e o doutorando respondeu que o acesso tinha sido colocado pela manhã: ERRADO. Nessa hora não fiquei calada e disse que o acesso já vinha do Hospital do Coração desde Sábado à noite.

3- o paciente se recusa a fazer exames: ERRADO. Meu avô, tem 94 anos e a fragilidade capilar assim como o quadro que se encontra não se é possível furar mais. Eu sofro cada vez que alguém tenta furá-lo, pois ele grita de tanta dor e me pediu pelo amor do divino que não deixasse mais ninguém machucá-lo.

No dia anterior meu avô estava com a pressão arterial 80X90 e o técnico chegou com uma medicação chamada Losartana para ser administrada no horário. Na mesma hora questionei o técnico, pois tal medicação tem efeito hipotensor já que é para o controle da pressão arterial. O técnico meio sem saber o que fazer disse que realmente se assim fosse eu não deveria administrá-la e que iria falar com o médico de plantão. Quando voltou pediu a medicação de volta. Após alguns momentos eu pensei: “eu poderia ter dado e acabado naquele momento com todo o sofrimento do meu avô”, porém conscientemente eu sabia que estava fazendo algo errado para a sociedade, já que a eutanásia (falo eutanásia, porque infelizmente meu avô se entregou a doença) não é permitida no Brasil.

Na madrugada meu avô acordou com cansaço, com isso fui ao posto de enfermagem e perguntei se poderia ser realizada alguma nebulização. A técnica chegou à porta da enfermaria e de longe disse: “eu não estou vendo que ele esteja cansado”. Na mesma hora eu respondi: “então, por favor, na hora em que A SENHORA ACHAR que ele esteja, faça a nebulização, obrigada.” Coloquei meu avô em uma cadeira e após alguns momentos ele referiu se sentir melhor. Depois a mesma técnica apareceu e disse que a nebulização não estava prescrita no prontuário dele e que não poderia administrar. Procure o médico então, mas não deixei meu avô morrer com falta de ar, pensei.

Na manhã do dia seguinte o mesmo técnico que me deu a Losartana me fez levantar meu avô para pesá-lo mesmo eu dizendo para ele que o mesmo não tinha condições, mas segundo ele devia ser feito. Pra quê meu Deus? Depois de ver que realmente ele não ficava em pé, ele desistiu e veio posteriormente com um uma fita métrica para deitado tirar a circunferência da barriga. Isso é um absurdo, eu nunca vi isso na minha vida acadêmica. Não resisti e disse: “ meu caro não é necessário nesse momento nenhum dado antropométrico do meu avô, pois se caso fosse realizado uma avaliação subjetiva global ele seria classificado como um paciente desnutrido grave, apenas observando seus sinais clínicos. Meu avô encontra-se com ICC, pneumonia, edema nos membros inferiores, desidratação, presença do oco axilar e assim vai, tais observações descartam qualquer avaliação antropométrica, mas como era um técnico que estava fazendo isso e não uma nutricionista, não pude falar claramente sobre esse assunto. Acredito que ele estava apenas cumprindo um papel, que por sinal muito mal. Existe algumas fórmulas para se estimar o peso de uma pessoa acamada, para esse caso ela deveria ser usada.

Com relação a essa medida da circunferência uma colega médica explicou  sua funcionalidade nos comentários abaixos.

Gente essa é a situação da saúde no nosso Brasil: técnicos com falta de treinamento e em números insuficientes, médicos frios e indiferentes, falta de apoio psicológico à família.

Essa história ainda continua …

Esse vídeo foi feito no Hospital do Coração, quando conseguimos 300 reais para dar um atendimento decente ao meu avô.

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