Comida de hospital: que mal tem isso?!

Faz algum tempo em que me encontro dentro da rotina hospitalar e a rejeição pela alimentação é algo presente e muito pouco desmistificado pelos profissionais. Atualmente o cenário da gastronomia hospitalar vem mudando um pouco, alguns hospitais investem em um serviço diferenciado e com característica do ramo de hotelaria, pois o objetivo é não mais ver a pessoa como paciente e sim como cliente. Porém essa realidade está longe de ser atingida nos nossos hospitais públicos, que como disse prof. Ana Maria “é caracterizado por aquela copeira que empurra seu carro cansada, arrastando os pés”.

A alimentação hospitalar carrega um estigma de que se devem comer as coisas sem sabor, isso se deve principalmente ao pouco consumo de sal em tais refeições, sempre com referência a dietas hipo ou restritas em sódio. Não posso falar de muitos hospitais, mas pelo menos nos dois que trabalhei nunca senti nenhum desagrado em comer tais comidas, e melhor, como agora estou em um serviço público, tenho até a liberdade de dizer que as pessoas do serviço público comem muito bem viu! Pergunto se seu café da manhã tem pão assado, dois tipos de fruta, tapioca, queijo, café com leite e mingau? Têm?! Eu lembro que uma colega ao ficar chateada com algumas reclamações dos pacientes, dizia: “esse povo não come nem isso em casa, ai quando chega aqui fica menosprezando a comida da gente”.

Engraçado, as meninas me falavam que a maior insatisfação pela alimentação era por parte das pessoas de pouca renda, tudo bem que elas consideravam apenas o local de moradia. Elas costumavam dizer que geralmente eram as pessoas que não tinham nada que reclamavam de tudo.

Certa vez ao ser interrogada sobre um desjejum, a paciente me perguntou se não poderia vir algo diferente, pois todos os dias eram pão, fruta, queijo, café e bolo, daí eu respondi com outra pergunta: como a senhora gostaria que viesse, como é a rotina do seu desjejum em casa? A resposta foi bem simples: “ah, geralmente eu como só um pãozinho com café com leite, não tenho muita fome não”. A senhora meio que desconcertada, não tinha argumentos para falar do desjejum do hospital, o que mais ela queria? Lembro que até deixei-a sem graça, porém tais intervenções são necessárias para que as pessoas reflitam um pouco antes de exigir algo.

Você tem que concordar comigo que estar em um hospital, muitas vezes não é uma escolha. Dessa forma algumas restrições alimentares são necessárias para melhor recuperação do sujeito. Não é a alimentação que é ruim e sim o estado que em que você se encontra.

O alimento não é apenas fontes de nutrientes, mas carrega consigo muito simbolismo, além de ser um importante canal de comunicação. O alimento desperta todos nossos sentidos e muitas vezes aliviam nossas angustias e incertezas, no qual em certos momentos descontamos alguma contrariedade. A comida nos dar prazer e não comer aquilo que queremos, nós deixa triste, eu pelo menos aprendi isso desde criança, quando queria me entupir de sorvete e muitas vezes não deixavam.

Lembre-se de que qualquer tipo de dieta pode sofrer substituições que atenda melhor o perfil de cada pessoa, a conversa é um importante meio de comunicação que muitas vezes ajuda os pacientes a aceitar melhor o tratamento, mais uma vez saber ouvir é algo essencial nos dias de hoje.

 Crédito da imagem: banco de imagens google.

Algumas lições…

O hospital também é lugar de histórias de vida, não só histórias como a própria lição que a vida nos reserva. Conheci uma mulher que há trinta anos cuida de pacientes internados, ela com certeza deve ter muita história pra contar. Fiquei admirada de saber que ela abandonou os filhos pra ser Hippie, e acabou indo morar em Pipa. Agora você veja como é a vida, tipo ela não cuidou dos filhos, mas hoje tem como missão cuidar de outras pessoas desconhecidas. Será que isso foi uma lição?

Outro caso é o senhor ao meu lado, ele deixou a família por uma mulher bem mais nova que ele. Já imaginaram o resultado final dessa história, se bem que pode ter vários finais… Como fiquei sabendo disso? Rsrsrs como já falei o hospital é um lugar de muitas histórias (…) bem, eu notei que sempre ele estava só, não tinha acompanhante o que dificulta ainda mais a condição dele. Aí um dia pela tarde estava eu lendo quando um rapaz chegou e perguntou por ele: “como ele está”.

Estranho era como esse rapaz olhava para ele, como se ele não tivesse sentimento nenhum por aquela pessoa, até pensei que fosse um curioso qualquer (tem demais em hospital) querendo saber o que o paciente tinha. Mas ai ele solta: “não tinha ninguém com ele?” “aquela piranha safada deixou ele aqui” Eu até ri nessa hora porque já imaginei toda situação… ele me contou a história de seu pai, caminhoneiro, encontrou a mulher mais nova na estrada, largou a família e os filhos e hoje está aqui sem ninguém, só com um telefone ao lado na expectativa de que alguém ligue, ou que venha.

A gente sempre deve está preparado para o que vier, as incertezas da vida nos coloca muitas vezes em situações que não pensamos nas outras pessoas e nem nos nossos atos, vivemos para errar e para aprender, difícil é fazer a coisa certa na primeira vez.

Algumas lições de vida nos fazem pensar melhor sobre nossas ações diárias.

Nutrição Clínica: uma vivência de estágio.

“ Bom dia, olá como vai? Sou da nutrição (ainda não nutricionista), gostaria de saber se a sua dieta, sua alimentação esta vindo tudo ok e se a senhora gostaria de fazer alguma observação?”

Essa pergunta eu repetia umas 40 vezes ao dia, mas 40 vezes eu escutava respostas diferentes, não diferente nas palavras, mas nos gestos, na atenção e na educação que quando não era interrompida por um celular era perfeito. Posso dizer que minha experiência na clínica foi grande parte fruto de um desenvolvimento psicológico que aflorou, pois mesmo sendo formada para atender as necessidades nutricionais de pessoas, não tinha como não relacionar a alimentação com as causas sociais e psicológicas.

Hoje em dia as pessoas estão muito carentes de atenção, de apoio emocional, apoio financeiro, cada vez mais somos engolidos pela falta de tempo, pela falta de lazer, pela falta de não pensar em nada. Tenho a sensação que mal começa a segunda e quando vejo já é a sexta! Minha avó dizia que tempo vale ouro e hoje em dia eu percebo o quanto ela estava certa.

No hospital a rotina é comprida, quando começo minhas visitas do dia vou logo para a maternidade, pois tenho sede de ver vida, de sentir o cheiro da pele nova, o vigor da criança que acaba de nascer… esse sentimento é impar e não consigo nem explicar com palavras pois só sentido o cheiro do nascimento que somos capazes de entender. Lá eu fico me imaginado no lugar daquelas mulheres, na verdade só sonhando, pois  tão cedo não pretendo ser mãe.

Ao descer para pediatria, começo a ver a dura realidade de nossas vidas e a fragilidade do ser humano. Crianças oncológicas, neuropatas, com quadro viróticos e assim vai… Vejo a angustia das mães, e como elas são mais presentes nessas horas. Tento de alguma forma aliviar certos sofrimentos sempre com mensagens positivas de que vai melhorar, é só uma questão de adaptação, a vida pode ser mais difícil e assim por diante… mesmo sabendo que uma criança neuropata não vai falar, não vai andar, não precisamos agir como se ela realmente não fosse, precisamos sim falar com ela, brincar e passar pra ela que estamos ali para ajudá-la, porque isso sim é mais importantes do que as certezas que porventura já temos em mente.

Ao descer para outro espaço do hospital, a realidade é bem diferente. Pessoas que fazem cirurgias desnecessárias colocando sua vida em risco, pacientes em pós cirúrgicos diversos e outros com doenças crônicas não transmissíveis. Esse setor é o que mais me deixa desconfortável, pois passei por algumas situações um pouco constrangedoras. Uma vez entrei no quarto para me certificar de que não tinha ninguém e tinha uma garota, daí perguntei se era algum procedimento cirúrgico, ela calada não me respondeu, mas chorando pude perceber que não era coisa boa. A mãe num tom leve disse que era uma curetagem, nesse momento fiquei sem ação imaginando a dor que aquela garota estava sentindo. Com educação falei que por enquanto sua dieta estava zero, mas que assim que saísse do procedimento nós verificaríamos sua prescrição. Quando sai do quarto senti que nada daquilo que tinha dito fazia importância para ela e naquele momento não me senti uma pessoa útil.

Outro caso é o de um paciente com câncer em estado gravíssimo. No caso dele todos os dias eu passava para visitá-lo e perguntava se estava conseguindo comer e a resposta nunca era boa e eu não podia fazer nada, pois ele não tolerava nenhuma comida. Nesse mesmo caso me sentia também inútil, pois a única coisa que podia fazer por ele era estar ali pra qualquer ajuda que ele viesse a precisar e era nesse pensamento que eu me agarrava.

Hoje em dia encaro a morte como um céu, pois tenho plena certeza que estamos em um purgatório. Se parar pra pensar nas dificuldades que passamos para nós tornar profissionais, não tenho como não pensar que esse sofrimento seja algum tipo de ritual de passagem, sim porque pra merecer uma paz divina, celestial, temos que ralar durante boa parte de nossas vidas.  Quando vejo pessoas em estado crítico no hospital à sensação que tenho é que ela sim está mais perto da luz do que eu, ela sim vai poder descansar. Por algum motivo que só Deus sabe algumas pessoas vão mais cedo e outras um pouco mais tarde. Eu espero que no dia que não puder mais ser uma pessoa auto-suficiente, que não possa mais responder pelos meus atos e que não lembre mais do que vivi, peço a Deus que nesse dia ele me poupe e poupe as pessoas que carregarão esse fardo.

Espero que meus amigos que compartilharam também de experiências como essas, possam deixar aqui uma mensagem de vivência adquirida e dessa forma registrar um momento único em nossas vidas!

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